Carro chinês sem peça: esperas de até 5 meses e os seus direitos
Donos de MG, Leapmotor, Geely e BYD relatam esperas de 2 a 5 meses por peças. Veja o que as marcas dizem e o que o Código do Consumidor garante a você.

Donos de carros chineses estão esperando de dois a cinco meses por peças simples, como para-brisa, para-lama e para-choque, segundo relatos reunidos pela Autoesporte nesta semana. Para quem dirige um desses modelos ou pensa em comprar, a mensagem é clara: o preço baixo na loja não garante conserto rápido depois de uma batida, mas a lei garante direitos que pouca gente usa.
O assunto repercutiu em vários portais nas últimas 24 horas, porque mexe com a principal dúvida de quem olha um BYD, um Geely ou um Leapmotor: "e se eu precisar de peça?".
O que os donos relataram?
A reportagem ouviu cinco donos de quatro marcas. Os casos, com as datas informadas por eles:
| Carro | Peça | Tempo de espera |
|---|---|---|
| MG4 Comfort 2025/2026 | Para-brisa trincado por pedra | Cerca de 5 meses (abril a 16/09); chegou um modelo errado no meio do caminho |
| Leapmotor C10 | Pneu, roda, amortecedor e para-brisa | Pouco mais de 2 meses; previsão subiu de 15–20 para 40 dias |
| Geely EX2 Pro | Para-choque, faróis, capô e chicote do motor | Mais de 3 meses (19/06 a 25/09) |
| Geely EX2 Max | Para-lama e suportes do para-choque | Peças "sem previsão"; a dona achou em outras concessionárias, de Aracaju a Florianópolis |
| BYD Dolphin Mini | Caixa de direção e caixa do evaporador do ar | Direção: 27/07 a 14/09; evaporador ainda pendente |
Um detalhe chama atenção no caso do MG4: depois da troca do para-brisa, o sistema de assistência ao motorista (ADAS, que freia sozinho e mantém o carro na faixa) parou de funcionar, porque a câmera fica presa ao vidro. A oficina de fora não conseguiu recalibrar, por falta de configuração no scanner.
No caso do Leapmotor, o carro reserva do seguro durou só 15 dias, e o dono ficou o resto do tempo a pé.
O que as marcas dizem?
- MG: lamentou o transtorno, disse que houve "indisponibilidade pontual e temporária" do para-brisa, já resolvida em junho, e que a peça está em estoque no centro de distribuição de Cajamar (SP). Sobre o ADAS, afirmou que a calibração exige equipamento homologado pela marca.
- Leapmotor (Stellantis): disse que "atualmente não identificamos uma categoria específica de peças ou modelos com atrasos recorrentes" e citou logística e importação como fatores que podem atrasar casos isolados.
- Geely e BYD: não responderam sobre os casos, alegando falta de dados dos clientes.
O problema é só dos chineses?
Não. Um estudo da Autoglass divulgado em setembro pela AutoIndústria apontou dificuldade para achar vidros de MG4, Denza B5 e Geely EX5, e componentes da picape BYD Shark. Mas o mesmo levantamento cita esportivos importados (Ferrari, Lamborghini, Porsche) e carros fora de linha, como Fiat Punto, Doblò, VW Polo e Golf antigos.
O ponto em comum é o mesmo: carro com poucas unidades rodando ou peça que depende de importação demora mais. As marcas chinesas cresceram muito rápido no Brasil, e o estoque de reposição nem sempre acompanhou as vendas. Veja como a Geely pretende ampliar a rede com a ajuda da Renault.
O que diz a lei?
O Código de Defesa do Consumidor tem dois artigos que valem para qualquer marca:
- Artigo 32: fabricantes e importadores "deverão assegurar a oferta de componentes e peças de reposição" enquanto o produto for fabricado ou importado. Depois que sai de linha, a oferta deve continuar "por período razoável de tempo".
- Artigo 18: se o carro tem um defeito (de fábrica, coberto pela garantia) e ele não é resolvido em até 30 dias, o consumidor escolhe entre trocar o carro por outro igual, receber o dinheiro de volta corrigido ou ter um abatimento no preço.
Atenção: o prazo de 30 dias do artigo 18 vale para defeito. Peça para conserto de batida, pago pelo seguro ou pelo dono, não é defeito. Mesmo assim, a falta da peça pode ferir o artigo 32 e abrir espaço para reclamação no Procon ou pedido de indenização.
O que muda para você
Se o seu carro está parado esperando peça:
- Peça à concessionária a previsão de entrega por escrito, com o número da ordem de serviço.
- Abra protocolo no SAC da montadora. Anote data, nome do atendente e número.
- Pergunte se outra concessionária da marca tem a peça. No caso do Geely EX2 Max, a própria dona achou as peças em outros estados, entregues em 2 dias.
- Se for batida, veja na apólice quantos dias de carro reserva você tem e se é possível estender.
- Se o prazo estourar, registre reclamação no Procon ou no consumidor.gov.br, citando o artigo 32 (e o 18, se for defeito na garantia).
Se você vai comprar um carro chinês:
- Pergunte na concessionária quanto tempo leva para chegar um para-brisa, um farol e um para-choque do modelo.
- Veja quantas lojas da marca existem no seu estado. Rede pequena costuma significar estoque pequeno.
- Pergunte se o modelo é montado no Brasil ou importado: peça importada depende de navio e alfândega.
- Confira o valor do carro na Tabela FIPE e cote o seguro antes de fechar negócio.
Se o carro tiver perda total por causa de uma batida, entenda como o seguro calcula a indenização pela FIPE.
O que não se sabe
Não há dado oficial sobre quantos carros chineses estão parados por falta de peça no Brasil. Os relatos da reportagem são casos individuais, e as marcas que responderam dizem que os atrasos são pontuais. O que existe de concreto é a obrigação legal de manter as peças, que vale para todas.
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Perguntas frequentes
A montadora é obrigada a ter peça de reposição?
Sim. O artigo 32 do Código de Defesa do Consumidor obriga fabricantes e importadores a garantir a oferta de peças enquanto o carro for fabricado ou importado, e por um período razoável depois que ele sair de linha.
O que fazer se a peça do carro na garantia demora mais de 30 dias?
Se for defeito coberto pela garantia e o conserto passar de 30 dias, o artigo 18 do CDC permite exigir a troca do carro por outro igual, a devolução do valor pago corrigido ou um abatimento no preço. Registre tudo por escrito e procure o Procon.
Fontes
- Autoesporte (republicado por Grupo Sentinela) — Donos de carros chineses relatam problemas para achar peças de reposição (16/10/2026)
- AutoIndústria — Na reposição, carros chineses já enfrentam problemas com falta de peças (14/09/2026)
- Planalto — Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), arts. 18 e 32
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