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Carro chinês sem peça: esperas de até 5 meses e os seus direitos

Donos de MG, Leapmotor, Geely e BYD relatam esperas de 2 a 5 meses por peças. Veja o que as marcas dizem e o que o Código do Consumidor garante a você.

BYD Dolphin Mini vendido no Brasil, um dos modelos citados nos relatos de demora por peças
BYD Dolphin Mini vendido no Brasil, um dos modelos citados nos relatos de demora por peças. Foto: Mateusmatsuda / Wikimedia Commons · CC BY 4.0

Donos de carros chineses estão esperando de dois a cinco meses por peças simples, como para-brisa, para-lama e para-choque, segundo relatos reunidos pela Autoesporte nesta semana. Para quem dirige um desses modelos ou pensa em comprar, a mensagem é clara: o preço baixo na loja não garante conserto rápido depois de uma batida, mas a lei garante direitos que pouca gente usa.

O assunto repercutiu em vários portais nas últimas 24 horas, porque mexe com a principal dúvida de quem olha um BYD, um Geely ou um Leapmotor: "e se eu precisar de peça?".

O que os donos relataram?

A reportagem ouviu cinco donos de quatro marcas. Os casos, com as datas informadas por eles:

Carro Peça Tempo de espera
MG4 Comfort 2025/2026 Para-brisa trincado por pedra Cerca de 5 meses (abril a 16/09); chegou um modelo errado no meio do caminho
Leapmotor C10 Pneu, roda, amortecedor e para-brisa Pouco mais de 2 meses; previsão subiu de 15–20 para 40 dias
Geely EX2 Pro Para-choque, faróis, capô e chicote do motor Mais de 3 meses (19/06 a 25/09)
Geely EX2 Max Para-lama e suportes do para-choque Peças "sem previsão"; a dona achou em outras concessionárias, de Aracaju a Florianópolis
BYD Dolphin Mini Caixa de direção e caixa do evaporador do ar Direção: 27/07 a 14/09; evaporador ainda pendente

Um detalhe chama atenção no caso do MG4: depois da troca do para-brisa, o sistema de assistência ao motorista (ADAS, que freia sozinho e mantém o carro na faixa) parou de funcionar, porque a câmera fica presa ao vidro. A oficina de fora não conseguiu recalibrar, por falta de configuração no scanner.

No caso do Leapmotor, o carro reserva do seguro durou só 15 dias, e o dono ficou o resto do tempo a pé.

O que as marcas dizem?

  • MG: lamentou o transtorno, disse que houve "indisponibilidade pontual e temporária" do para-brisa, já resolvida em junho, e que a peça está em estoque no centro de distribuição de Cajamar (SP). Sobre o ADAS, afirmou que a calibração exige equipamento homologado pela marca.
  • Leapmotor (Stellantis): disse que "atualmente não identificamos uma categoria específica de peças ou modelos com atrasos recorrentes" e citou logística e importação como fatores que podem atrasar casos isolados.
  • Geely e BYD: não responderam sobre os casos, alegando falta de dados dos clientes.

O problema é só dos chineses?

Não. Um estudo da Autoglass divulgado em setembro pela AutoIndústria apontou dificuldade para achar vidros de MG4, Denza B5 e Geely EX5, e componentes da picape BYD Shark. Mas o mesmo levantamento cita esportivos importados (Ferrari, Lamborghini, Porsche) e carros fora de linha, como Fiat Punto, Doblò, VW Polo e Golf antigos.

O ponto em comum é o mesmo: carro com poucas unidades rodando ou peça que depende de importação demora mais. As marcas chinesas cresceram muito rápido no Brasil, e o estoque de reposição nem sempre acompanhou as vendas. Veja como a Geely pretende ampliar a rede com a ajuda da Renault.

O que diz a lei?

O Código de Defesa do Consumidor tem dois artigos que valem para qualquer marca:

  • Artigo 32: fabricantes e importadores "deverão assegurar a oferta de componentes e peças de reposição" enquanto o produto for fabricado ou importado. Depois que sai de linha, a oferta deve continuar "por período razoável de tempo".
  • Artigo 18: se o carro tem um defeito (de fábrica, coberto pela garantia) e ele não é resolvido em até 30 dias, o consumidor escolhe entre trocar o carro por outro igual, receber o dinheiro de volta corrigido ou ter um abatimento no preço.

Atenção: o prazo de 30 dias do artigo 18 vale para defeito. Peça para conserto de batida, pago pelo seguro ou pelo dono, não é defeito. Mesmo assim, a falta da peça pode ferir o artigo 32 e abrir espaço para reclamação no Procon ou pedido de indenização.

O que muda para você

Se o seu carro está parado esperando peça:

  1. Peça à concessionária a previsão de entrega por escrito, com o número da ordem de serviço.
  2. Abra protocolo no SAC da montadora. Anote data, nome do atendente e número.
  3. Pergunte se outra concessionária da marca tem a peça. No caso do Geely EX2 Max, a própria dona achou as peças em outros estados, entregues em 2 dias.
  4. Se for batida, veja na apólice quantos dias de carro reserva você tem e se é possível estender.
  5. Se o prazo estourar, registre reclamação no Procon ou no consumidor.gov.br, citando o artigo 32 (e o 18, se for defeito na garantia).

Se você vai comprar um carro chinês:

  • Pergunte na concessionária quanto tempo leva para chegar um para-brisa, um farol e um para-choque do modelo.
  • Veja quantas lojas da marca existem no seu estado. Rede pequena costuma significar estoque pequeno.
  • Pergunte se o modelo é montado no Brasil ou importado: peça importada depende de navio e alfândega.
  • Confira o valor do carro na Tabela FIPE e cote o seguro antes de fechar negócio.

Se o carro tiver perda total por causa de uma batida, entenda como o seguro calcula a indenização pela FIPE.

O que não se sabe

Não há dado oficial sobre quantos carros chineses estão parados por falta de peça no Brasil. Os relatos da reportagem são casos individuais, e as marcas que responderam dizem que os atrasos são pontuais. O que existe de concreto é a obrigação legal de manter as peças, que vale para todas.

Galeria de fotos

Oficina mecânica com carros em manutenção e ferramentas na bancada
Oficina mecânica com carros em manutenção e ferramentas na bancada. Foto: Martin Vorel / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
BYD Seagull, nome do Dolphin Mini na China, visto de frente
BYD Seagull, nome do Dolphin Mini na China, visto de frente. Foto: User3204 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
BYD Dolphin em exposição
BYD Dolphin em exposição. Foto: Alexander-93 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

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Perguntas frequentes

A montadora é obrigada a ter peça de reposição?

Sim. O artigo 32 do Código de Defesa do Consumidor obriga fabricantes e importadores a garantir a oferta de peças enquanto o carro for fabricado ou importado, e por um período razoável depois que ele sair de linha.

O que fazer se a peça do carro na garantia demora mais de 30 dias?

Se for defeito coberto pela garantia e o conserto passar de 30 dias, o artigo 18 do CDC permite exigir a troca do carro por outro igual, a devolução do valor pago corrigido ou um abatimento no preço. Registre tudo por escrito e procure o Procon.

Fontes

  1. Autoesporte (republicado por Grupo Sentinela) — Donos de carros chineses relatam problemas para achar peças de reposição (16/10/2026)
  2. AutoIndústria — Na reposição, carros chineses já enfrentam problemas com falta de peças (14/09/2026)
  3. Planalto — Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), arts. 18 e 32

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