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Stellantis: modelo da BYD ameaça 90% dos empregos? Entenda

Stellantis afirma que montar carros com kits importados, como faz a BYD, ameaça 90% dos empregos do setor. Veja os números, a resposta da BYD e o que muda.

Polo Automotivo Stellantis de Betim (MG), um dos maiores complexos de produção de veículos do país
Polo Automotivo Stellantis de Betim (MG), um dos maiores complexos de produção de veículos do país. Foto: Stellantis (divulgação) / Sala de imprensa Stellantis · Uso editorial (imprensa)

A Stellantis, dona de Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, afirma que o jeito como a BYD e outras marcas chinesas produzem no Brasil, montando carros com kits que chegam prontos do exterior, pode ameaçar até 90% dos empregos da indústria automotiva. Para quem dirige ou vai comprar carro, nada muda hoje, mas a briga mexe com o imposto de importação dos kits, que tem prazo para acabar no fim de 2026 e pode influenciar o preço dos elétricos.

A declaração foi dada no dia 7 de outubro e voltou com força ao noticiário neste fim de semana, depois de reportagem da Gazeta do Povo e da repercussão em entidades empresariais do interior paulista.

O que a Stellantis disse, exatamente?

Quem falou foi Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul, em conversa com jornalistas em São Paulo, segundo a Bloomberg Línea. A conta apresentada por ele é simples:

  • a Stellantis tem cerca de 35 mil funcionários na América do Sul;
  • se passasse a só montar carros com kits importados, precisaria de mais ou menos 10% dessa equipe;
  • daí o número de "até 90%" de empregos em risco.

Zola disse que o imposto de importação de 35% sobre elétricos montados lá fora não é suficiente para forçar as montadoras a investir em fabricação local e cobrou uma política industrial clara. Ele também afirmou que a própria Stellantis poderia adotar o modelo de kits, usando as parceiras chinesas Leapmotor e Dongfeng.

Importante: a montadora não detalhou a metodologia do cálculo. É uma projeção de uma das partes interessadas, não um estudo independente.

O que é montar carro com kit (CKD e SKD)?

São duas siglas que aparecem muito nessa discussão:

Sigla Como o carro chega O que é feito no Brasil
SKD (semidesmontado) Grandes partes já prontas, como carroceria pintada Acabamento e montagem final
CKD (totalmente desmontado) Peças separadas Montagem completa do carro

Na prática, quanto mais etapas ficam lá fora (estamparia das chapas, solda da carroceria, pintura, motor, bateria), menos gente é contratada aqui e menos peças são compradas de fornecedores brasileiros. É esse o centro da crítica das montadoras tradicionais.

Por que o assunto esquentou agora?

Porque as marcas chinesas cresceram rápido. Segundo dados citados pela Bloomberg Línea, elas tiveram cerca de 17% das vendas de carros novos de janeiro a setembro de 2026 e 25% só em setembro, contra perto de 9% em todo o ano de 2025.

O BYD Dolphin Mini, montado em Camaçari, é o segundo carro mais vendido de outubro até agora, com 4.266 unidades, atrás só do Hyundai HB20, segundo a parcial da Fenabrave compilada pelo Car.Blog.Br. Veja o ranking completo em Hyundai HB20 passa o Polo: os mais vendidos de outubro até agora.

Some a isso uma regra de imposto que beneficia quem monta com kit: em junho, o Gecex (comitê da Câmara de Comércio Exterior) aprovou uma cota de US$ 463 milhões em kits de carros eletrificados com imposto de importação zero, por seis meses a partir de 1º de julho de 2026, de acordo com o eixos e o VRUM. Fora da cota, kits SKD pagam 35% e kits CKD pagam 14% até o fim de 2026, subindo para 35% em janeiro de 2027.

O que diz o outro lado?

BYD. A marca não respondeu diretamente à fala de Zola nas reportagens consultadas. Mas os números que ela divulga vão na direção oposta. Segundo o VRUM, a fábrica de Camaçari (BA), no antigo terreno da Ford, chegou a 8,5 mil empregados diretos, com meta de 10 mil em 2026, e mais de 90% dos contratados são baianos. A empresa diz que vai começar soldagem, pintura e estamparia até o fim do ano, etapas que hoje justamente faltam. Lá são feitos o Dolphin Mini, o sedã King e o SUV Song Pro, num investimento de R$ 5,5 bilhões. Em janeiro, quando a Anfavea levantou a mesma crítica, a BYD chamou a resistência de reação de "concorrentes obsoletos" e disse que democratiza o acesso ao carro elétrico, segundo o Olhar Digital.

Governo. O MDIC defende a cota como forma de renovar a frota e reduzir emissões de CO2, e a medida foi apresentada como um jeito de evitar o aumento de preço dos elétricos. O argumento é que atrair a montadora primeiro abre caminho para a nacionalização gradual.

Anfavea. A associação das montadoras já tinha estimado, em janeiro, que a montagem simplificada virar regra poderia eliminar até 69 mil empregos diretos e afetar 227 mil indiretos. Quando a cota foi renovada, disse que a decisão "coloca em xeque a confiança" de quem investiu e prometeu ir à Justiça.

O que muda para você?

  • Quem vai comprar carro agora: nada muda. Preços, garantia e rede de concessionárias seguem iguais. Antes de fechar negócio, compare o valor na Tabela FIPE.
  • Quem quer um elétrico: fique de olho em dezembro. A cota de imposto zero termina por volta do fim do ano e, sem renovação, o imposto dos kits CKD vai a 35% em 2027. Mais imposto na importação costuma chegar ao preço, mas cada marca decide quanto repassa. Veja também o que muda no BYD Dolphin Mini 2027.
  • Quem trabalha no setor ou mora em polo automotivo: a discussão é sobre o futuro das vagas de fábricas e fornecedores de peças. A BYD contrata na Bahia, enquanto as montadoras tradicionais dizem que o modelo de kits gera menos vagas por carro produzido.

O que ainda não se sabe?

  • Se o governo vai renovar a cota de kits com imposto zero depois de dezembro.
  • Quanto do carro da BYD será, de fato, fabricado no Brasil a partir de 2027; a empresa não divulgou percentual.
  • Se a própria Stellantis vai adotar kits das parceiras chinesas, como Zola disse ser possível.

A disputa coloca de um lado preço e acesso ao carro elétrico, e de outro o emprego na cadeia de autopeças. Os dois argumentos têm números, e os dois vêm de partes interessadas.

Galeria de fotos

BYD Dolphin Mini, um dos modelos montados pela BYD em Camaçari (BA)
BYD Dolphin Mini, um dos modelos montados pela BYD em Camaçari (BA). Foto: Mateusmatsuda / Wikimedia Commons · CC BY 4.0
Carroceria de automóvel em linha de montagem cercada por braços robóticos
Carroceria de automóvel em linha de montagem cercada por braços robóticos. Foto: Lilian Do Khac / Unsplash · Unsplash License
Fiat Strada, picape da Stellantis feita em Betim (MG)
Fiat Strada, picape da Stellantis feita em Betim (MG). Foto: Just a Man / Wikimedia Commons · CC BY 4.0

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Perguntas frequentes

O que é carro montado em CKD e SKD?

No SKD o carro chega ao Brasil semidesmontado e a fábrica só termina a montagem. No CKD as peças chegam totalmente desmontadas e o carro é montado aqui. Nos dois casos, boa parte da fabricação (estamparia, solda, pintura, componentes) pode ficar no exterior.

O carro elétrico vai ficar mais caro em 2027?

Não há decisão. A cota de US$ 463 milhões com imposto zero para kits vale por seis meses desde 1º de julho de 2026, e fora dela o imposto sobre kits CKD sobe de 14% para 35% em janeiro de 2027. Se a cota não for renovada, o custo de importação aumenta, o que pode pesar no preço.

Fontes

  1. Bloomberg Línea — Importação chinesa ameaça até 90% dos empregos automotivos, diz Stellantis (08/10/2026)
  2. Gazeta do Povo — "Modelo BYD" de produção ameaça 90% dos empregos no setor (17/10/2026)
  3. VRUM — BYD chega a 8,5 mil empregos na Bahia (01/10/2026)
  4. eixos — Governo renova cota de importação de veículos elétricos e Anfavea promete ir à Justiça (23/06/2026)
  5. VRUM — Governo prorroga isenção de impostos para produção de carros em CKD e SKD (06/2026)
  6. Olhar Digital — Anfavea: modelo de negócio da BYD pode eliminar 69 mil empregos (20/01/2026)
  7. Car.Blog.Br — Carros mais vendidos em outubro, dia 18 (dados Fenabrave)

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